Pular para o conteúdo principal

Sem pisar na linha


Acordou, escovou os dentes e quase que mecanicamente foi executando seus afazeres, conforme planejado na noite anterior. Recebeu alguns convites, estranhamente as pessoas ainda lhe faziam convites, recusou os  inesperados, mesmo aqueles bem atraentes. Odiava surpresas, elas eram capazes de causar-lhe uma instabilidade perturbadora.  Precisava se preparar emocionalmente para as emoções que nunca chegara a sentir. Dizia "não" com uma suavidade assustadora, aos outros podia parecer antipatia, mas mal sabiam eles,  era apenas medo. Medo disfarçado de coragem e travestido em segurança.

Ela se obrigava a fazer tudo conforme as regras daquele jogo que insistia em jogar sozinha. A sensação de estar no controle  lhe era mais atraente que qualquer outra, talvez por não conhecer muitas outras. Toda aquela rotina de negação fazia parte do aluguel pago para permanecer na sua zona de conforto. Era o seu jogo e suas regras, parecia simples, mas era um jogo sem graça e sem vencedores. 

Quando criança não pisava nas linhas da calçada. Então... Passaram se algumas primaveras e ela cresceu. Não! Não adianta tentar florear a história. Não foi assim que aconteceu. Não houveram primaveras e ela ao menos cresceu. Foram apenas invernos e ao invés de crescer ela simplesmente envelheceu seguindo aquelas regras infantis. E até hoje não conhece o prazer de pisar na linha. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dos sonhos da Lagarta

Sonhou enquanto lagarta,sonhos de Lagarta. Sonhos que eram parte de quem era, e do que acreditava. Sonhos que cabiam nela! Sonhos que eram dela! Sonhos nos quais ela desejava fazer morada. Enfim os sonhos chegaram... Mas chegaram quando a Lagarta tinha ganhado asas, e já não cabia numa realidade outrora sonhada.

TEXTO: Me falaram: Ame e dê vexame, mas eu ignorei só a parte do ame

Acredito que dentro de cada um de nós existe vários "eus". Nossas atitudes normais são como acordos, um meio termos entre cada um desses "eus" que nos compõe. Definir uma pessoa por uma atitude escrota que ela toma é no mínimo injusto. Mas julgar atitudes alheias "todos curtem", mesmo que a gente se policie "vira e mexe" estamos lá, prontos para apontar o dedo e julgar o primeiro a deslizar, o primeiro a perder a linha. Rotulamos os coleguinhas, os conhecidos, os amigos, família e até mesmo os desconhecidos. O álcool funciona como uma perda de filtro. Aquele filtro que te regula, te impede de sair por aí pintando o sete de cabeça para baixo, colocando fogo no coreto, aquele filtro que faz com que você reprima eu  "espirito de porco". Ok, não é legal tomar atitudes escrotas e colocar toda a culpa no álcool, mas de fato, algumas vezes a culpa realmente é dele. A ideia para a atitude é sua, daquele seu eu sem juízo, mas a força aliad...

Pela vontade de fazer sentido, esqueceu de sentir, e sequer foi sentida

Atenta a lógica, sempre preocupada com a imagem e forma. Fazer sentido sempre foi primordial! Além do cuidado pra ter aquela imagem sensacional, sempre evitando ao máximo qualquer sombra do passional. Pelo medo de se quebrar, seguiu racionalizando qualquer sentir, se iludia sobre levar uma vida normal. Tão tola... mal sabia que sentir era essencial! E foi assim, passou pela vida com uma imagem sensacional, e uma racionalidade sem igual. Pela vontade de fazer sentido, esqueceu de sentir, e sequer foi sentida.